Milton SantosGlobalização e reorganização histórica.As
ideias, em várias áreas do conhecimento humano, do geógrafo e grande
pensador Milton Santos, um dos pouquíssimos brasileiros ganhadores de um
Prêmio Nobel até o momento, suscita uma reflexão sobre a história atual
do Brasil - e do mundo! - para um melhor entendimento de suas efetivas
mudanças sociais e éticas.
Por Adriana Venâncio
Trazer Milton Santos (1926-2001) como referência para discutir a
respeito da globalização é perceber os impactos que esse fenômeno vem
trazendo para as relações econômicas e sociais da atualidade. Para o
autor, essa “faca de dois gumes” pode impulsionar uma reorganização
histórica a partir de novos parâmetros de desenvolvimento e convivência
para a humanidade.
Embora tenha sido o único Prêmio Nobel Brasileiro da Geografia
até o momento, conquistado em 1994, Milton Santos teve ideias que
perpassaram por muitas áreas do conhecimento, ensinando as pessoas a
compreenderem o seu próprio tempo, percebendo-se como parte integrante
dele, dentro de uma certa “ordem mundial”.
Ainda como estudante, foi o responsável pela fundação da União Brasileira dos Estudantes Secundários, escreveu no jornal
O Momento,
além de ser o diretor da Imprensa Oficial e, ao mesmo tempo, professor
da Universidade Federal da Bahia. Foi professor de várias outras
universidades, entre elas a Universidade de São Paulo (USP), também deu
aula e atuou como pesquisador em universidades do exterior. Ficou
exilado na França durante o Regime Militar, após ter sido preso, e,
retornou ao Brasil em 1978. Sempre teve uma militância política nas
discussões democráticas do país e foi, talvez, um dos mais sensíveis
críticos dos efeitos da globalização no Brasil e no mundo.
Mazelas de um mundo globalizado
Todos os dias chegam-nos notícias dos mais diversos meios e fontes
de comunicação de que em algum local do mundo pessoas morrem de fome; ou
que os índices salariais caem cada vez mais; ou que as grandes empresas
mais poluidoras do mundo não estão preocupadas efetivamente em mudar
suas políticas em relação ao meio ambiente; ou que as taxas de pobreza
continuam aumentando em muitos lugares do planeta e que a violência
cresce, mesmo nos ambientes de maior crescimento econômico.
Esses problemas são de fato notados por muitos de nós, porque, de
uma maneira ou de outra, somos afetados diretamente por eles. Mas
embora nos afetem, percebê-los e constatar que eles existem não nos
habilita para atuar no sentido de combatê-los para que possam ser
superados realmente.
Esse sentimento de inação, embora nos deixe aparentemente atados
por não sabermos ao certo o que fazer para mudar tais realidades, pode
estar ligado a nossa falta de percepção política e social sobre o que
esses problemas podem causar em nossa vida. Milton Santos observa que o
estágio atual da globalização está produzindo mais e mais desigualdades
sociais, e, ao contrário do que se esperava no passado, continuam
crescendo o desemprego, a pobreza, a fome, a insegurança do cotidiano,
em um mundo onde se ampliam as fraturas sociais. Sedados diante de tais
realidades, o que poderia justificar esse tipo de imobilidade social à
qual nos submetemos constantemente em nosso dia a dia?
Deusa grega da justiça divina
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Entre a fantasia e o real
Na Antiguidade Clássica, era muito conhecido entre os gregos o drama
vivido por duas Deusas que se odiavam brutalmente, ao ponto de nunca
poderem ser vistas uma pela outra. Eram elas a deusa da justiça e a
deusa da mentira. No Olimpo, um dos desafios de Zeus e dos outros deuses
e deusas era o de arranjar para que nunca uma delas se encontrasse com a
outra. E dessa forma, era comum o fato de que onde se encontrava a
deusa da justiça, jamais a deusa da mentira poderia ser vista. E a paz
reinava em todos os campos e lugares.
No entanto, é sabido por todos que grandes festas eram realizadas
pelos deuses para celebrar seus feitos entre os homens. E foi em uma
dessas festas consagradas por Baco, com os melhores vinhos, que talvez
uma das maiores tragédias da história do Olimpo sucedera: após
intermináveis dias de comemoração, a embriaguez era sem dúvida a única
que reinava. Nesse ambiente, já farta de tanto vinho, a deusa da justiça
resolve ir até os jardins daquele templo para tomar o ar fresco que lhe
traria mais ânimo para prosseguir nos festejos. Porém, o mesmo se deu
com a deusa da mentira, também já indisposta de tanta beberagem. E foi
assim, em uma sequência de fatos que o inevitável aconteceu: em um
encontro súbito cada uma delas desembainhou imediatamente sua espada, em
uma luta desenfreada e sangrenta de golpes que se seguiam sem trégua.
A globalização está produzindo mais e mais desigualdades sociais...
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Durante horas que pareciam infinitas, elas duelaram como jamais
se tinha visto em todo o Olimpo, adentrando inclusive os primeiros raios
que nasciam pela manhã. Dessa forma, depois de longos e exaustivos
esforços investidos de uma contra a outra, a deusa da justiça consegue
empreender um golpe fatal, cortando em definitivo a cabeça da deusa da
mentira. Mas o que não era previsto também aconteceu e, em uma ironia do
destino, a deusa da justiça recebeu simultaneamente o mesmo golpe
daquela que atingira, perdendo também a própria cabeça.
“A chamada globalização como fábula é, para
Milton Santos, a prática hábil do mercado em vender ‘mentiras’
fantasiadas de ‘justiça social’”
O que se seguiu talvez justifique as maiores tragédias e
injustiças que vêm acontecendo ao longo de todos os tempos nos mais
diversos pontos da Terra: a deusa da justiça saiu tateando ao seu redor
em busca de sua cabeça e assim que encontrou algo semelhante, restituiu o
achado ao seu local de origem. Da mesma forma procedeu a deusa da
mentira. Nesse momento, já extasiados com tanta brutalidade, os deuses
do Olimpo assistiram à cena que mudaria completamente o curso da
humanidade: foi o momento em que ambas as deusas trocaram para sempre as
suas cabeças, de modo que desde então nunca mais se soube ao certo o
que poderia representar, de fato, a justiça ou a mentira.
Talvez esse mito originário da Antiguidade Clássica possa nos
ajudar a figurar, ainda que através do caminho da narrativa lírica, um
pouco da dualidade que passou a existir em relação ao conceito de
justiça embutido nos valores humanos de nossa sociedade atual, tão
entranhada em uma ideologia globalizada. Nesse movimento, a chamada
globalização como fábula é, para Milton Santos, a prática hábil do
mercado em vender “mentiras” fantasiadas de “justiça social”.
e, ao contrário do que se esperava, continuam crescendo o desemprego, a pobreza, a fome e a insegurança
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“A grande tarefa pedagógica do momento
histórico atual é a de capacitar os cidadãos para criticarem o
consumismo e reaprenderem as tarefas da cidadania”
Para que as pessoas possam compreender a dupla face desse tipo
específico de “justiça” é preciso que a Educação, o Estado e os demais
meios de informação assumam também o papel de denunciar a imensa
distância que separa um e outro. Em outras palavras, é preciso que cada
cidadão tenha consciência de que o consumismo passou a existir como uma
lei permanente da vida das pessoas e deixou de ser o meio, para ser o
fim dos problemas de todas as necessidades humanas. É fundamental que
cada cidadão possa entender que a prática do “sobre consumo” gera um
sentimento ilusório de realização pessoal (tão bem instilados pela força
de mercado) e que isso garante a continuidade do sistema lucrativo das
grandes empresas internacionais. Para Milton Santos, a produção e
informação globalizadas permitem a emergência de um lucro em escala
mundial, buscado pelas firmas globais que constituem o verdadeiro motor
da atividade econômica.
Educar para quê?
A grande tarefa pedagógica do momento histórico pelo qual estamos
passando é a de capacitar os cidadãos para criticarem o consumismo e
reaprenderem as tarefas da cidadania, objetivos que não podem ser
alcançados separadamente. Infelizmente, o próprio Brasil sofreu com uma
conivência do Estado, da Educação e dos meios de informação no sentido
de colaborar com essa vertente consumista. É dessa forma que a ideologia
do consumo foi ficando cada vez mais impregnada na população em geral.
Ao discutir sobre a “doença” do comprar desenfreado, Milton
Santos nota que a primeira reação da população pobre, como qualquer
outra, é a do consumo e que isso é normal, mas que depois se descobre
que não basta consumir, ou que para consumir de forma permanente,
progressiva e digna é necessário ser cidadão.
Dessa forma, um grande dilema a ser desvendado em nossa
atualidade é a confusão entre quem é o cidadão e quem é o consumidor,
pois a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas
pessoais e não como direitos sociais. Essa doença cívica vai tomando um
lugar sempre maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando
menor e até a vontade de se tornar um cidadão por inteiro se reduz.
Talvez por isso, esses que são, na realidade, tidos como bens públicos,
passem a não sê-lo, transitando do lugar de “dever social” do Estado
para o de bens de mercado.

Atualmente a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais...
A
distribuição de renda piorou na maior parte do mundo em 2011. Os países
que ocupam as 10 últimas posições no Índice de Desenvolvimento Humano
são todos da África Sub-sahariana
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Os intelectuais e suas ideias
Quando se discute o papel do intelectual no Brasil, nota-se no
discurso de Milton Santos uma grande coerência entre o que sugere como
sendo o dever a ser cumprido por todo intelectual brasileiro e o seu
próprio exemplo de grande pensador e militante das causas humanas, em
diferentes contextos econômicos, sociais, políticos e culturais do
Brasil.
Ao tratar dos elementos que considera particularmente importantes
nessa atuação, ressalta que em um mundo em que as ideias são um
respaldo necessário aos processos de reconstrução democrática, os
intelectuais apresentam um papel fundamental. No entanto, destaca que,
na atualidade, esses mesmos intelectuais têm destinado seus esforços
mais no sentido de favorecer uma militância de discursos ambíguos e
momentâneos do que para um trabalho permanente e gradual de
conscientização coletiva.
“A prática do consumo gera um sentimento
ilusório de realização pessoal e isso garante a continuidade do sistema
lucrativo das grandes empresas”
Os intelectuais, segundo Milton Santos, deveriam se esmerar em
fazer eco às reivindicações mais profundas das populações carentes, no
sentido de intervirem nos projetos políticos e sociais do país. Dessa
forma, caberia a eles oferecer à sociedade, por meio dos mais diversos
segmentos, organizados ou não (associações, sindicatos, igrejas,
partidos), uma profunda reflexão social de sua própria realidade
contraditória, alertando-os sobre as possibilidades de um fazer político
que esteja condizente com as demandas e interesses sociais da maioria
da população.
Talvez por essa imensa preocupação em relação às intervenções que
os intelectuais deveriam carregar como princípio de sua práxis, nosso
pesquisador brasileiro define que, para ele,
intelectual é o indivíduo que tem um compromisso único com a verdade e que está muito mais preocupado com o prestígio do que com o poder.
1. Milton Santos, um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida na década de 1970 / 2. Vilém Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro / 3. Hilton Japiassu, filósofo
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Se entender o mundo de hoje é um problema para os intelectuais
brasileiros, o nosso prêmio Nobel da Geografia Brasileira observou que
nas teses, de um modo geral, de praticamente todos os centros e
faculdades, o mundo é quase ignorado. E estudar o mundo é, segundo ele,
trabalhar com o “como” ensinar à população sobre o que é o mundo, quais
são as relações que comandam a vida nacional, como é que os fenômenos
sociais e econômicos se realizam, por meio de um discurso crítico e não
de uma mera análise.
Nesse sentido, observa Hilton Japiassu, que a Ciência está ainda
em débito com o objeto de estudo “homem”. Nessas premissas, destaca a
dificuldade cada vez maior em se praticar a pesquisa onde o homem é ou
deveria ser tomado como o elemento fundamental, em um lugar em que a
Ciência está voltada ao setor econômico e à produção e aumento de bens
de consumo.
É nesse ambiente que as ciências humanas acabaram por contribuir
com o desaparecimento de numerosas civilizações equilibradas. Nessa
herança, cabe agora, e mais do que nunca, aos intelectuais a
responsabilidade por terem compreendido demasiadamente tarde que o homem
deveria ter sido estudado, antes de tudo, como ser humano, e não,
prioritariamente, como um cliente possível.
Talvez uma das maiores contribuições da filosofia seja a de
ajudar a resgatar a liberdade humana. Segundo Flusser, a filosofia é
necessária porque, mesmo em um mundo programado por grandes blocos
econômicos, ela traz o exercício do pensar sobre o significado que cada
homem pode dar à sua própria vida e, ao mesmo tempo, consegue apontar
para um caminho de liberdade.
Nesse papel filosófico, não apenas do intelectual, mas também da
própria universidade, cabe a construção de uma visão abrangente e
dinâmica do que é o mundo, do que é o país, do que é o lugar, e o papel
de denúncia, isto é, de proclamação clara do que é o mundo, o país, e o
lugar, dizendo tudo isso em voz alta. Essa crítica é o próprio trabalho
do intelectual e poderia ser o trabalho do professor e do pesquisador.
- FLUSSER, Vilém. Filosofia Da Caixa Preta:
Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 2002.
- JAPIASSU, Hilton. Nascimento e Morte das Ciências Humanas. Rio de Janeiro (RJ): Editora Francisco Alves, 1978.
- SANTOS, Milton. O Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987.
- SANTOS, Milton. O País Distorcido: O Brasil, a Globalização e a Cidadania. Publifolha: São Paulo, 2002.
-SANTOS, Milton. Encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2007.
- SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do Pensamento
Único à Consciência Universal. Rio de Janeiro: Record. 19ª edição, 2010.
- SILVA, Maria Auxiliadora da & JÚNIOR, Rubens de
Toledo. Encontro com o Pensamento de Milton Santos: a
Interdisciplinaridade na Sua Obra. Salvador: Universidade Federal da
Bahia. Mestrado em Geografia, 2006.
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ADRIANA GOMES VENÂNCIO é
Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Brasília (UnB),
Mestra em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e
Historiadora pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Há mais de
15 anos vem atuando como educadora, pesquisadora e consultora de
projetos na área de História e Educação Patrimonial. É coautora da
Coleção Conhecer e Crescer de História, pela Escala Educacional, autora
de artigos para revistas e livros didáticos e leitora crítica de
Coleções de História para editoras do segmento educacional.
Fonte:http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/51/globalizacao-e-reorganizacao-historica-as-ideias-em-varias-areas-263551-1.asp