País rico não é aquele que pobre anda de carro. É aquele que rico anda de transporte público.
Mobilidade Urbana? Vamos à Berlin aprender
Nestes dias em que a reivindicação popular por um transporte público
de qualidade, mais eficiente e de preços justos (para não falar os que
reivindicam a catraca livre) tomou conta das ruas das principais cidades
do Brasil, é natural voltarmos nossos olhos para lugares que apresentem
uma solução.
Assim é Berlin, cidade que não teve medo de mudar e hoje vive seu
presente sem remoer o passado. Enterrou à Segunda Guerra, varreu os
escombros do Muro da Vergonha, pintou-lhe a sobra de grafites coloridos e
abraçou o futuro.
Berlin é vanguarda mundial quando o assunto é mobilidade urbana;
ocupação de grandes cidades por pessoas e humanização dos espaços
públicos. A arte, a criatividade e o design – todos à serviço da
sustentabilidade – estão em cada bairro, feira de rua ou parque da
capital alemã.
Por suas paragens, lembrei à todo instante do livro Cidades
Invisíveis, do escritor italiano Ítalo Calvino, que realiza uma viagem
imaginária pela ótica do navegador Marco Polo. “O viajante sempre leva
consigo onde quer que vá, a sua cidade de origem. É a partir dela que
compara e analisa o que vê”. Paulistano que sou, não conseguia parar de
pensar em São Paulo. Voltei de lá otimista. Afinal, se agora pulsa uma
metrópole vibrante, há 70 anos soçobravam destroços, ruínas e uma
profunda ressaca moral. Há tempo para acertarmos o passo. De deixarmos
nossas urbes mais humanas.
País rico não é aquele que pobre anda de carro. É aquele que rico anda de transporte público
O site da empresa de transporte público, a Berliner Verkehrsbetriebe
(BVG) dá uma aula de informações sobre locomoção: trens urbanos, metrô,
bonde, ônibus e barcos cobrem toda a cidade de maneira organizada. E o
melhor: estão sempre interligados com as ciclovias para andar de
bicicleta.
É possível comprar bilhetes múltiplos que servem para quaisquer tipos
de transporte, além de outros inúmeros tipos de bilhete: os simples
(que valem por duas horas); os diários (você pode usar a rede toda até
as 3h da manhã do dia seguinte); os para viagens curtas (até 3
estações), longas e uma infinidade de outros, com desconto para grupos,
estudantes, etecetera. Cada um paga o que é justo, pelo que roda no
busão ou no metrô. Há ainda bilhete semanal, mensal e até anual. Tudo é
tão bem feito, que a grande maioria da população quase nem anda de
carro, ou taxi. A cidade fica muito mais silenciosa e despoluída.
Berlin Ama Bicicletas. Bicicletas Amam Berlin. Lições de harmonia entre ciclistas e carros.
“O importante para começar é o respeito. Respeito dos motoristas com
as bicicletas no trânsito e vice-versa.” A opinião é de Christhian
Tanzler, diretor do Visit Berlin, quando perguntei-lhe o que São Paulo
deveria fazer para seguir o exemplo de Berlin. Há 20 anos, Tanzler só
anda de bike pela cidade. Tudo começou quando sofreu um acidente de
moto, fraturou a perna e teve que andar de bicicleta para reforçar a
musculatura. Gostou tanto, que a magrela virou não só seu único veículo
de transporte, como estilo de vida e motivação para viagens. Pedalando,
ele já cruzou Cuba, parte da Indonésia, os Alpes e outros destinos. Na
sua cidade natal, não importa o destino ou o compromisso, ele sempre vai
de bike. “Não existe transporte melhor. Você economiza petróleo,
dinheiro, ajuda a melhorar o ar da cidade, conhece melhor os lugares,
olha na cara das pessoas e ainda fica com saúde” enumera Cristhian. Ele
não está sozinho. Cerca de um milhão de bicicletas circulam diariamente
pela capital alemã, cuja população gira em torno de 4 milhões de
habitantes. À favor dos ciclistas estão 900 quilômetros de ciclovias,
mais outros 200 onde a faixa é dividida irmanamente com os ônibus. Em
algumas ruas e praças, só pedestres e bicicletas têm o direito de
transitar.
“A geografia plana da cidade ajuda. É muito fácil ir do ponto A para o
ponto B. E se cansar é só colocar a bicicleta num trem ou metrô (U-bahn
ou S-bahn – mas compre um bilhete especial de ciclista) e seguir
viagem” diz Mathias Stefan Petersdorf, guia da Berlin On Bike (
www.berlinonbike.de).
Sua empresa é especializada em roteiros personalizados: históricos,
verde ou de arquitetura, que custam entre 15 e 19 euros por pessoa e
levam em média 4 horas.
Com Mathias pedalamos eu, Carol e Tiago. A pequena Luisa foi
confortavelmente instalada numa extensão coberta da minha bike para
protegê-la da neve. Nosso destino foram os bairros da antiga Berlin
Oriental, de Kultur Bauer até a East Side Gallery (trecho do antigo muro
todo grafitado), cruzando fundo pelos bairros de Mitte e Prenzlauer
Berg, antigos centros boêmios da cidade, em processo de gentrificação
(se você não sabe o que quer dizer essa palavra, não se assuste, eu
também não sabia e vou falar mais sobre ela, mas resumindo: é quando um
bairro de classe operária passa a ser valorizado e ocupado pela elite).
Quem não quiser um guia para rodar em Berlin, pode ficar tranquilo.
Basta alugar uma bicicleta (10 euros por 24 horas) na Berlin On Bike ou
em diversas estações de metrô da cidade (o preço é praticamente o mesmo,
dependendo do modelo e acessórios) e sair pedalando. Para não se
perder, entre em qualquer uma das tantas livrarias de Berlin e compre
mapas com sugestões de roteiros auto-guiados. E mesmo que pedalar não
seja a sua praia, tome uma bike-taxi para viajar pela cidade ao som da
corrente rodando pelo pedal.
Para não fazer feio, o guia Mathias dá algumas dicas. “Dê sinal antes
de virar; não pare na faixa de pedestres, respeite os semáforos e use o
bom senso.” Segundo a brasileira Patrícia Gertel, psicóloga brasileira
que mora em Berlin há 4 anos, é preciso lembrar que no verão o estoque
de bicicletas acaba cedo. “Chegue antes das dez da manhã” diz. “E também
coloque um cadeado quando estacionar. Não dê moleza” completa Patrícia.
No mais é aproveitar o passeio. É seguro e gostoso.
Mi Carro, Su Carro
A nova onda em Berlin é dividir os carros e não pagar nem seus impostos, nem a manutenção.
Quando o assunto é mobilidade urbana, Berlin olha para o futuro.
Inteiramente conectada por transportes públicos eficientes como trens,
metrôs, ônibus e ciclovias, a cidade também enxerga os carros. Mas não o
meu, nem o seu, mas o carro de todos nós, ou melhor, de qualquer um.
Foi assim que marcas famosas como a Mercedez Benz e a BMW iniciaram há
pouco menos de um ano, uma batalha pelo mercado do Car Sharing (ou Carro
Comunitário).
Funciona da seguinte forma. Através do aplicativo de um smart phone
você decide a hora e o local que quer usar um carro. O aplicativo
rastreia e indica o lugar no Google Maps. Aí é só se dirigir ao local,
colocar a carteira de motorista no parabrisas e voilá. A porta se abre, a
chave está dentro e é sair guiando com um carro novo, sempre limpinho,
com o tanque cheio e um computador de bordo para navegar e tocar as
músicas favoritas do seu Ipad.
O preço é tabelado. Custa 29 centavos de euro o minuto, por um mínimo
de 10 minutos e um máximo de 20 quilômetros (se ultrapassar a
quilometragem, deve-se pagar um adicional). Ao finalizar é só estacionar
o veículo em uma vaga permitida, fechar a porta e dar tchau para o
carro.
O programa é exclusivo para os berlinenses e para se cadastrar é
preciso ter uma carteira de motorista válida e pagar uma anuidade de E$
9,90. O programa da BMW, Drive Now, possui 500 carros circulando na
cidade e 27 mil sócios. Já o Car2Go da Mercedez, possui mil veículos,
todos eles elétricos. Uma frota do modelo Smart azul e branco que servem
85 mil sócios. “São pequeninos, fáceis de guiar e de estacionar” diz
Robert Henrich, diretor de mobilidade da Mercedez Benz. Os BMWs por sua
vez possuem mais modelos, alguns com quatro lugares e são ideais para as
famílias.
“Eu morava em Hamburgo e tinha carro. Aqui em Berlin, moramos num
prédio sem estacionamento. Não faz sentido ter carro. Quando quero um,
para levar meu filho na escola num dia de chuva, ou ir a uma entrevista
de terno, pego um Smart da Car2go” diz Max Behenger.
“É uma solução maravilhosa. E verde. Diminui o impacto no
meio-ambiente. É o futuro” diz Norbert Reithhofer, diretor do programa
da BMW.
“Também é uma resposta ao mercado atual. A juventude de Berlin é
muito transgressora e não liga mais para o carro como símbolo de Status,
não querem ter um carro, mas gostam de dirigir, claro, quando precisam”
afirma Christhian Tanzler do Visit Berlin.
Os números comprovam o sucesso. Em recente reportagem sobre o
assunto, a Bloomberg Business Week revela as projeções do Consoulting
Group Frost e Sullivan afirmando que o Car Sharing vai invadir a Europa,
saltando dos 700 mil usuários atuais para 15 milhões em 2020. A Car2Go
já está em 12 cidades do mundo e pretende chegar a 20 ainda este ano.
Vamos torcer para essa moda chegar logo ao Brasil. Eu vou aderir com
certeza, ainda mais sabendo que vou ter sempre um carro limpo e novinho
nas mãos. Ainda melhor se for elétrico.
Deixo o link de um vídeo legal com um teste sobre o assunto. Smack! Vielen Dank e até o próximo post!
http://www.youtube.com/watch?v=ULnpYxJ8WrA&feature=player_embedded
fotos: visitBerlin/Scholvien
fotos: divulgação Drive Now
Em: http://blogs.estadao.com.br/aprendendo-no-mundo/pais-rico-nao-e-aquele-que-pobre-anda-de-carro-e-aquele-que-rico-anda-de-transporte-publico/