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domingo, 17 de fevereiro de 2013

425 mil ações que dependem do STF estão paradas em todo o país.

Levantamento do próprio Supremo em 14 tribunais foi atualizado em janeiro.
Na próxima quarta (20), STF analisa 2 processos com 'repercussão geral'.

Mariana Oliveira Do G1, em Brasília

Levantamento realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mostra que mais de 425 mil processos judiciais estão parados em 14 tribunais do país à espera de decisões da Suprema Corte. Os dados foram atualizados em janeiro deste ano e fazem parte das estatísticas sobre ações que tiveram repercussão geral reconhecida.
AÇÕES PARALISADAS À ESPERA DO STF
Tribunal
Processos parados
Tribunal Regional Federal da 1ª Região
8.657
Tribunal Regional Federal da 2ª Região (considerando somente Juizado Especial Federal)

8.683
Tribunal Regional Federal da 3ª Região (considerando somente Juizado Especial Federal)
33.325
Tribunal Regional Federal da 4ª Região (considerando os dados do Juizado Especial Federal)
63.929
Tribunal Regional Federal da 5ª Região (considerando somente Juizado Especial Federal)
15.775
Superior Tribunal de Justiça
2.016
Tribunal Superior do Trabalho
26.054
Tribunal de Justiça de Minas Gerais
16.015
Tribunal de Justiça de Pernambuco
1.104
Tribunal de Justiça de Santa Catarina
2.858
Tribunal de Justiça de São Paulo
192.310
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
6.554
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte
834
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
47.085
Fonte: STF
Quando um tema alvo de muitos questionamentos judiciais chega ao Supremo, a Corte pode definir que há repercussão geral, ou seja, que a decisão tomada pelo plenário deve ser seguida nas instâncias inferiores. Com isso, os processos sobre o assunto ficam sobrestados (paralisados) até que o STF decida.
Na próxima quarta-feira (20), o Supremo volta a analisar processos com repercussão geral e que influenciam a vida de milhares de brasileiros. Durante todo o segundo semestre de 2012, o tribunal esteve dedicado ao processo do mensalão, que terminou com 25 condenados.
Estão na pauta da próxima quarta processo que pede a validade da revisão da aposentadoria e outro que definirá de quem é a competência para julgar processos sobre previdência privada.
Segundo o ministro Marco Aurélio Mello, a definição de processos desse tipo é uma preocupação para o tribunal.
"Nos preocupamos muito com isso porque processos versando sobre a mesma matéria nos tribunais do país estão sobrestados, e as partes aguardando decisão do Supremo", destacou Marco Aurélio.
Dos 425.199 processos parados nos 14 tribunais conforme a última atualização do Supremo, cerca de 500 se referem à revisão de aposentadoria.
Em um recurso que será julgado, uma mulher pediu o direito de mudar a data de início do benefício, uma vez que isso aumentaria o valor de seu vencimento. Ela esperou para se aposentar com mais idade, em 1980, e percebeu que a aposentadoria foi menor do que se tivesse pedido antes, em 1979, quando já havia atingido os requisitos mínimos para pleitear o benefício. Ela pede ainda o direito a receber a diferença nos mais de 30 anos que se passaram.
Ao analisar o caso, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) afirmou que não há previsão legal para revisar a aposentadoria sem que haja irregularidade na concessão. A aposentada disse que a decisão fere o artigo 5º da Constituição, que estabelece que "a lei não prejudicará o direito adquirido".
O processo foi discutido pelo plenário do Supremo em fevereiro do ano passado, mas a decisão acabou sendo adiada por um pedido de vista (mais tempo para analisar o processo) do ministro Dias Toffoli.
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) argumentou que, caso o Supremo conceda o pedido, isso poderá aumentar ainda mais o déficit nas contas da Previdência Social.
Na ocasião, a ministra relatora do processo, Ellen Gracie, chegou a conceder o direito da revisão, mas negou o pagamento retroativo. Como Ellen Gracie já votou, a ministra Rosa Weber, que entrou no lugar dela, não votará sobre o tema, segundo a assessoria do Supremo.
Outras 9,7 mil ações paralisadas nos tribunais abordam a competência de tribunais sobre a previdência privada. Nesta semana, o Supremo pode julgar um recurso da Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros) que questiona a competência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) para decidir sobre a previdência privada decorrente de contratos de trabalho. Para a Petros, a Constituição atribui à Justiça comum esse papel.
O pedido da Petros está na pauta da corte e caberá ao presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, decidir se levará o processo a discussão.
Planos econômicos
O maior número de processos paralisados nos 14 tribunais sobre os quais o Supremo tem informações se refere ao julgamento de ações que contestam os índices de correção monetária decorrentes dos planos econômicos Bresser, Verão, Collor I e II.
Dos 425 mil processos parados, 226.137 mil são referentes aos planos econômicos. Não há previsão para que as ações referentes ao tema sejam incluídas na pauta do plenário, mas a expectativa é de que isso ocorra ainda neste ano.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Atividades do cotidiano fazem tão bem quanto ir à academia.

Pesquisa concluiu que exercícios físicos proporcionam benefícios à saúde independentemente do tipo de atividade. Ir à academia pode ser tão saudável quanto subir escadas ou limpar a casa.

Atividade física: Exercitar-se não quer dizer somente frequentar uma academia, mas também ser fisicamente ativo no dia-a-dia, como subindo mais escadas e passando menos tempo sentado
Atividade física: Exercitar-se não quer dizer somente frequentar uma academia, mas também ser fisicamente ativo no dia-a-dia, como subindo mais escadas e passando menos tempo sentado (Thinkstock)

Ser fisicamente ativo não quer dizer necessariamente frequentar uma academia vários dias na semana. Pode também significar realizar uma série de exercícios curtos do cotidiano, como subir escada ou varrer a casa, ao longo do dia. E, ao menos de acordo com os resultados de um novo estudo da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos, esses dois tipos de atividade física são igualmente benéficos à saúde — capazes de prevenir a pressão e o colesterol altos. Essa pesquisa está presente na edição deste mês do periódico American Journal of Health Promotion.

Conheça a pesquisa

TÍTULO ORIGINAL: Association Between Biologic Outcomes and Objectively Measured Physical Activity Accumulated in ≥10-Minute Bouts and <10-Minute Bouts
ONDE FOI DIVULGADA: periódico American Journal of Health Promotion
QUEM FEZ: Paul Loprinzi e Bradley Cardinal
INSTITUIÇÃO: Universidade Estadual de Oregon, Estados Unidos
RESULTADO: Cumprir os 150 minutos semanais de atividade física reudz o risco de síndrome metabólica, independentemente se cumpridos com exercícios regulares feitos na academia, por exemplo, ou se com atividades do cotidiano, como subir escadas e limpar a casa.

Paul Loprinzi, coordenador da pesquisa, e sua equipe avaliaram os dados de 6.321 pessoas entre 18 e 85 anos que haviam participado do Observatório Nacional de Exames em Saúde e Nutrição (NHANES, na sigla em inglês) entre 2003 e 2006. Os pesquisadores avaliaram fatores de saúde dos participantes como níveis de colesterol, triglicérides e açúcar no sangue, e também mediram os níveis de atividade física praticados pelos indivíduos com a ajuda de um acelerômetro (aparelho que mede a intensidade de exercícios feitos ao longo do dia).
De acordo com os resultados, 43% das pessoas que não frequentavam a academia em dias predeterminados cumpriam, mesmo assim, as recomendações mínimas de exercícios (150 minutos por semana). Após levarem em consideração fatores como idade e índice de massa corporal (IMC), os autores do estudo concluíram que cumprir esse tempo mínimo de atividade física por semana — se com exercícios de academia ou com a realização de atividades do cotidiano — reduz o risco de síndrome metabólica da mesma forma.
A síndrome metabólica é caracterizada por um grupo de fatores que predispõem às doenças cardiovasculares, ao diabetes e, quando as doenças ocorrem associadamente, à morte prematura. Para ser diagnosticado com síndrome metabólica, o paciente deve se enquadrar em três ou mais das seguintes características: hipertensão, açúcar elevado no sangue, excesso de gordura abdominal, baixo nível de bom colesterol e índices elevados de ácidos graxos.
Leia também:
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Caminhada rápida ou corrida reduzem pela metade o risco de síndrome metabólica
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"Nossa pesquisa sugere que um estilo de vida ativo pode ser tão benéfico quanto uma abordagem estruturada de prática de exercícios para a melhora de uma série de fatores de saúde", diz Loprinzi. Segundo o pesquisador, os resultados devem incentivar que as pessoas busquem se exercitar o máximo possível no dia a dia, como "andar pela casa enquanto falam ao telefone em vez de permanecerem sentadas ou então optar por andar de escada, e não de elevador, sempre que possível. Nosso estudo dá opções realistas para que as pessoas atinjam as recomendações diárias de atividade física de uma forma natural", diz.

Seis formas de driblar o sedentarismo:

Levante da cadeira de tempos em tempos

Em 2008, uma pesquisa australiana divulgada no periódico Diabetes Care mostrou que o aumento do número de pausas em momentos sedentários que um indivíduo faz, como levantar da cadeira após mais de uma hora e meia sentado, proporciona a perda da circunferência abdominal e a redução do índice de massa corporal (IMC) e nos níveis de glicose no sangue. Para o ortopedista Sérgio José Nicoletti, as pessoas não devem passar mais do que uma hora sentadas sem se levantar. A cada hora, portanto, é importante levantar, caminhar pela casa ou pelo escritório e alongar-se quando possível. Esse hábito alivia o incômodo provocado pelas horas na cadeira e ativa a circulação sanguínea. Alarmes e recados em lugares visíveis ajudam um indivíduo a lembrar de sair da cadeira. No trabalho, criar o hábito de andar até a mesa de algum colega em vez de mandar e-mail ou telefonar para ele ou fazer o caminho mais longa até o banheiro são opções que ajudam a ampliar o tempo de movimento.

Mesmo sentado, se movimente

Há determinados exercícios que podem ser feitos por uma pessoa enquanto ela está sentada e que conseguem amenizar alguns problemas decorrentes do sedentarismo. Os médicos recomendam que as pessoas contraiam e relaxem o abdome seis vezes seguidas e por várias vezes ao dia para fortalecer o músculo da região e melhorar a postura. Eles também indicam que, sempre que possível, as pessoas mexam e estiquem os joelhos para evitar problemas na região a longo prazo; girem pés e tornozelos para os dois lados; façam movimentos para cima a pera baixo com as mãos e alonguem braços, ombros e pescoço. Por fim, procure arrumar sua postura todas as vezes que se lembrar.

Fique sentado em uma posição adequada

De acordo com Nicoletti, a posição em que uma pessoa permanece sentada pode interferir no risco dos problemas acarretados pelo sedentarismo. O médico indica que a cadeira não tenha apoio dorsal completo, ou seja, que o seu encosto não envolva todas as costas, para que, assim, a coluna faça sua curvatura normal ao sentarmos. Além disso, é importante que o centro da tela do computador esteja na mesma altura dos olhos e que os pés estejam apoiados no chão e que a dobra dos joelhos forme um ângulo de 90º.

Use os momentos de lazer a favor da sua saúde

De acordo com um artigo publicado em 2010 no periódico Diabetes, cada hora que um indivíduo passa sentado em frente à televisão aumenta em 11% o risco de morte. Se o trabalho de uma pessoa exige que ela fique sentada durante horas, o mesmo não vale para os momentos de lazer. Prefira realizar atividades que exijam movimento, como andar de bicicleta ou caminhar no parque, em vez de ficar em frente à televisão ou jogar videogame, por exemplo.

Pratique atividade física regularmente

Segundo o novo estudo australiano, ter o hábito de praticar alguma atividade física diminui o risco de mortalidade relacionado ao tempo prolongado no qual alguém fica sentado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os adultos pratiquem ao menos 30 minutos de alguma atividade física, como caminhada rápida, todos os dias, além de algum exercício que fortaleça músculos e ossos duas vezes por semana. Esse hábito reduz o risco de diversas doenças, melhora a saúde óssea e muscular, além de gastar a energia que consumimos e não gastamos nos momentos de sedentarismo. "Trabalhar com a nossa musculatura diminui as dores e os problemas acarretados pelo período prolongado de tempo em que ficamos sentados. O músculo abdominal fortalecido, por exemplo, melhora a postura e nos protege de dores nas costas", diz o médico ortopedista Márcio Passini.

Caminhe mais

Falta de tempo e de vontade para ir à academia não deve ser desculpa para que uma pessoa deixe de praticar as atividades físicas necessárias em um dia. "Meia hora de esteira pode ser substituída por uma caminhada do estacionamento, ponto de ônibus, metrô ou trem até o trabalho: por exemplo, é só parar o carro em um lugar mais longe ou parar em estações mais distantes do que a que está acostumado. Subir escadas em vez de usar o elevador e ir a pé, e não de carro, para lugares próximos também são saídas", diz o ortopedista Nicoletti. Para controlar a quantidade de exercício que você faz no dia a dia, cronometre por quanto tempo você caminha ou conte os passos que dá (existem aplicativos de celular, por exemplo, que fazem isso por você) e compare essa quantidade com os passos dados quando anda durante 30 minutos na esteira. "No entanto, é preciso ressaltar que fragmentar o tempo de atividade física diária durante o dia, embora seja eficaz para saúde, não ajuda uma pessoa que quer emagrecer", afirma Passini.

Em  http://veja.abril.com.br/noticia/saude/atividades-do-dia-a-dia-sao-tao-beneficas-quanto-ir-a-academia






Análise científica sugere restrição ao diclofenaco.

De acordo com os autores, a droga, que é um anti-inflamatório não esteroide amplamente utilizado ao redor do mundo, apresenta mais riscos à saúde cardiovascular do que outros remédios do tipo.

Depois do infarto: tratamento com analgésicos da classe dos antiinflamatórios não-esteróides podem elevar os riscos cardíacos
Diclofenaco, um analgésico da classe dos antiinflamatórios não-esteróides, eleva risco cardíaco mais do que outras drogas do tipo, diz análise (Thinkstock)

Uma análise publicada nesta quarta-feira no periódico PLoS Medicine sugere que o diclofenaco, um anti-inflamatório não esteroide, deixe de fazer parte das listas nacionais de medicamentos essenciais devido ao seu alto risco cardiovascular. Os autores do trabalho também afirmam que seria importante que as autorizações para o marketing do remédio ao redor do mundo fossem revogadas. "O diclofenaco não oferece maiores vantagens em termos de segurança gastrointestinal. Dada a disponibilidade de alternativas mais seguras, o remédio deveria ser removido da lista de drogas essenciais dos países", escreveram os pesquisadores.

Conheça a pesquisa

TÍTULO ORIGINAL: Use of Non-Steroidal Anti-Inflammatory Drugs That Elevate Cardiovascular Risk: An Examination of Sales and Essential Medicines Lists in Low-, Middle-, and High-Income Countries
ONDE FOI DIVULGADA: periódico PLoS Medicine
QUEM FEZ: Patricia McGettigan e David Henry
INSTITUIÇÃO: Instituto de Pesquisa William Harvey,  Londres, e Instituto para Ciências de Avaliação Clínica, Canadá.
RESULTADO: O diclofenaco não apresenta maior segurança gastrointestinal do que outros anti-inflamatórios não esteroides. No entanto, promove um risco cardiovascular maior do que os outros, e semelhante ao apresentado pelo Vioxx, remédio que saiu de circulação devido ao seu risco ao coração. O diclofenaco é amplamente utilizado ao redor do mundo e chega a ser o anti-inflamatório não esteroide mais usado em alguns países. Por esse motivo, a análise sugere que o medicamento deixe de fazer parte das listas nacionais de drogas essenciais.

Os anti-inflamatórios não esteroides são uma classe de medicamentos prescritos para controlar a dor, a febre e a inflamação. Também fazem parte dessa classe drogas como o ácido acetilsalicílico, o ibuprofeno e o naproxeno. De acordo os autores do trabalho, já é sabido há algum tempo que alguns anti-inflamatórios não esteroides elevam o risco de uma pessoa sofrer algum evento cardiovascular, como ataque cardíaco ou derrame cerebral. E, da mesma forma, os especialistas também sabem que o diclofenaco parece aumentar essa chance mais do que outros remédios do tipo, como o naproxeno, por exemplo. Mesmo assim, em países como Canadá e Inglaterra, o diclofenaco é prescrito até três vezes mais do que o naproxeno.

Leia também: Estudo liga uso de analgésicos ao aborto espontâneo

Perigo conhecido — Ainda de acordo com o trabalho, o risco cardiovascular do diclofenaco é equivalente ao apresentado pelo Vioxx (rofecoxib), que um dia já foi o anti-inflamatório mais vendido no Brasil e cuja venda foi proibida em 2004 justamente pelo risco que apresentava ao coração. Segundo um estudo feito em 2000 pelo próprio fabricante do Vioxx, o laboratório Merck & Co., o consumo diário de 24 miligramas da droga por mais de 18 meses dobrava as chances de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
A análise publicada nesta terça-feira avaliou os medicamentos utilizados em 15 países de diferentes níveis socioeconômicos e descobriu que o diclofenaco é o anti-inflamatório não esteroide mais utilizado em todos eles. De acordo com a pesquisa, o diclofenaco também faz parte da lista de remédios essenciais de 74 países de baixa, média e alta renda.
A análise foi feita por especialistas do Instituto de Pesquisa William Harvey, em Londres, e do Instituto para Ciências de Avaliação Clínica, no Canadá. Os autores acreditam que esses dados revelam que os riscos associados ao diclofenaco não estão sendo passados para a população de uma forma clara e eficiente.

Opinião do especialista

Carlos Alberto Machado
Cardiologista e diretor de de promoção de saúde cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia

"Todo anti-inflamatório não esteroide apresenta um risco para a saúde cardiovascular, mas cada um o faz com intensidades diferentes. Isso porque esses remédios inibem a dilatação dos vasos e, portanto, podem impedir que a artéria permaneça aberta. Além disso, esses medicamentos danificam os rins, especialmente dos idosos, que compõem a maioria dos pacientes que fazem uso dessa droga.
O diclofenaco é um dos anti-inflamatórios não esteroide mais antigos e, portanto, um dos mais receitados. O fato de ele apresentar um risco maior do que os outros não quer dizer que os cuidados com o uso desses remédios devam ser diferentes. Os cuidados são um só.
Assim, e isso vale para todos os anti-inflamatórios não esteroides, o paciente que fizer uso de um medicamento do tipo deve ter um acompanhamento médico e não pode tomar o remédio por um tempo prolongado e de forma indiscriminada. Além disso, o médico deve informar o indivíduo sobre os riscos da droga. Penso que esses medicamentos deveriam ser vendidos somente com a apresentação da receita médica."

Em http://veja.abril.com.br/noticia/saude/analise-cientifica-sugere-restricao-ao-diclofenaco

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Por que os homens têm cada vez menos espermatozoides?

Estudos mostram queda na qualidade do sêmen ao longo dos anos em todo o mundo, inclusive o Brasil. Stress, obesidade, poucas horas de sono e poluição do ar, entre outros fatores ligados à vida moderna, podem ser os culpados.

Juliana Santos
Espermatozoides
Estudos de diversos países têm mostrado reduções na quantidade e qualidade dos espermatozoides (Thinkstock)

Nos últimos anos, estudos de diversos países chegaram a uma conclusão preocupante: a quantidade e a qualidade dos espermatozoides no sêmen dos homens estão diminuindo. Ainda não é possível afirmar se a fertilidade está sendo afetada por esse fenômeno, mas essa redução não deixa de ser alerta importante sobre a saúde masculina. O sêmen é considerado um "termômetro" da saúde do homem, de forma que a queda na sua qualidade, mesmo que não implique em dificuldades de reprodução, não é um bom sinal.
Um dos estudos mais relevantes, realizado com 26.609 homens na França e publicado em dezembro do ano passado no periódico Human Reproduction, mostrou uma redução de 32% na concentração dos espermatozoides em um período de 17 anos. A média para homens de 35 anos de idade caiu de 73,6 milhões por mililitro de sêmen para 49,9 milhões.
Na Espanha, um estudo comparou 273 amostras de sêmen de 2001 e 2002 com 215 amostras de 2010 e 2011 e observou uma redução na concentração de espermatozoides de 72 milhões por mililitro de sêmen para 52,1. A Finlândia mostrou um padrão parecido: um estudo com 858 homens mostrou que a concentração espermática, que em 1998 era de 67 milhões por mililitro de sêmen, caiu para 48 milhões em 2006.
Além da quantidade de espermatozoides por mililitro, denominada concentração espermática, outros fatores importantes para a qualidade do sêmen são a motilidade e a morfologia. A primeira se refere à capacidade de movimentação do espermatozoide: aqueles com mais chances de realizar a fecundação são os que "nadam" rápido e em linha reta. Já a morfologia se refere à forma do gameta, como o tamanho da cabeça em relação à cauda.
Leia também: Muita televisão prejudica a fertilidade masculina, diz estudo
Um estudo realizado na Dinamarca e publicado no periódico British Medical Journal (BMJ), concluiu que apenas um quarto dos homens tinha qualidade espermática ideal, levando em consideração os fatores explicados acima. A pesquisa contou com a participação de 4.867 homens, com idade média de 19 anos, e mostrou também que um em cada quatro homens deve levar um tempo prolongado para conseguir engravidar a parceira e 15% apresentam alto risco de precisar de tratamento de fertilidade.
No Brasil, um estudo realizado por pesquisadores da clínica de reprodução assistida Fertility analisou 2.300 amostras de sêmen de homens com idade média de 35 anos, com um  intervalo de 10 anos (743 amostras de 2000-2002 e 1536 de 2010-2012). Os resultados mostraram uma redução na concentração de espermatozoides por mililitro de 61,7 milhões para 26,7. A quantidade de espermatozoides morfologicamente normais caiu de 4,6% para 2,7%.
Edson Borges, especialista em reprodução humana e Diretor Cientifico da clínica Fertility, que coordenou o estudo, explica que os números brasileiros são menores do que os resultados dos outros países porque a pesquisa foi realizada com homens que procuraram a clínica para tratamento de fertilidade, o que significa que a probabilidade de que eles já apresentem uma quantidade menor de espermatozoides é maior. Ainda assim, a tendência de queda observada é semelhante a dos outros estudos.
A pesquisa, que será apresentada no Congresso Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), em julho de 2013, mostra também um aumento na azoospermia, ausência de espermatozoides no sêmen. No período estudado, a quantidade de homens com esse quadro aumentou de 4,9% para 8,5%. Além disso, foi encontrado um aumento na quantidade de homens com alteração seminal grave (problemas na concentração, morfologia e mobilidade dos espermatozoides): de 15,7% para 30,3%.
Mudança de parâmetros — Em 2010, os parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para análise do sêmen se tornaram menos rígidos. A partir dessa data, a concentração mínima de espermatozoides por mililitro de sêmen para o homem considerado normal passou de 20 milhões, no manual de 1999 da OMS, para 15. Já a porcentagem mínima necessária de gametas considerados morfologicamente normais passou de 14% para 4%
Isso significa que os homens com concentração espermática entre 20 e 15 milhões de espermatozoides, por exemplo, que antes seriam considerados abaixo do normal e, por isso, deveriam realizar diversos exames para determinar as causas da concentração baixa, passam a ser considerados pacientes dentro da média. Para Conrado Alvarenga, urologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital Sírio Libanês, o impacto dessa modificação ainda é incerto, mas pode levar a um atraso na busca por ajuda médica. De acordo com ele, cerca de 40% de homens com espermograma alterado antes de 2010 passaram a ser considerados normais.
A redução nos valores de normalidade para os parâmetros seminais ocorreu devido aos resultados de um estudo multicêntrico, realizado pela própria OMS, que mostrou que os valores encontrados na média dos homens considerados férteis eram menores do que  aqueles que estavam sendo adotados como normais. "Antes de 2010 era comum os médicos sentirem que os critérios da OMS eram muito rígidos. A gente via vários homens nos consultórios que conseguiam engravidar a esposa mesmo estando abaixo dos valores determinados", diz Conrado. "O estudo de 2010 mostrou para o mundo que os valores normais não são tão altos quanto se achava antes."
Uma crítica feita por especialistas ao estudo da OMS é o fato e que ele não incluiu amostragem de participantes latinos, de modo que é possível que os valores continuem inadequados para a população desses países, inclusive o Brasil.
De acordo com Aguinaldo Nardi, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a entidade está desenvolvendo um estudo que busca descobrir os valores normais de espermograma dos brasileiros, que deve ficar pronto em cerca de 10 meses. "O estudo também servirá para futuras comparações em relação à qualidade e quantidade de espermatozoides no sêmen", diz Aguinaldo.
Fertilidade – Segundo a definição da OMS, um homem só pode ser considerado infértil se ele não consegue engravidar sua companheira (desde que ela seja normal no que se refere à fertilidade) em até 12 meses de tentativa, uma vez que esse é o período em que 90% dos casais conseguem atingir o objetivo. Isso significa que um homem não pode ser considerado infértil com base nos resultados da análise de sêmen, a não ser em casos extremos, como a azoospermia, ausência total de espermatozoides no sêmen ejaculado.
Por essa razão, apesar das diversas evidências científicas apontando para a redução na quantidade e piora na qualidade dos espermatozoides, ainda não se pode afirmar se isso provocou ou não o aumento da infertilidade. "Os estudos são realizados com base em espermogramas. Esse exame não é um carimbo de fértil ou infértil, ele é um sinal indireto de que alguma coisa não está bem", explica Conrado. "Um individuo com concentração espermática menor que 15 milhões por mililitro de sêmen, por exemplo, não é infértil. Ele pode engravidar a esposa, mas ele pode demorar mais que um ano, ou pode ser que ele tenha dificuldades mesmo."
De acordo com os especialistas, o aumento da procura por tratamentos para infertilidade e reprodução assistida também é uma realidade, mas ainda não é possível avaliar o impacto que a queda na qualidade dos espermatozoides pode ter nesse crescimento. Outros fatores, como as mulheres estarem engravidando cada vez mais tarde e um aumento do poder aquisitivo de classes mais baixas, que tornou esse tipo de tratamento mais acessível do que no passado, podem ter um peso maior nesse aumento do que a queda na qualidade seminal.
Alerta – Os dados existentes até o momento, apesar de não demonstrarem um comprometimento da fertilidade, são motivo de preocupação para os especialistas. Além de suas funções reprodutivas, o sêmen é considerado uma espécie de termômetro para saúde do homem, de forma que a queda da sua qualidade pode ser um reflexo de outros problemas de saúde. "Será que a piora na qualidade seminal não é um reflexo da piora da saúde no mundo, mesmo nos países desenvolvidos?", questiona Conrado Alvarenga.
Para os especialistas, tudo indica que a resposta é positiva, e as possíveis causas estão associadas àquilo que se convencionou chamar de "vida moderna". "O estereótipo do homem moderno é aquele mais gordinho, estressado, ejaculador precoce, muitas vezes impotente, que não tem tanto interesse sexual e que está as três da manhã checando o celular. Esse homem pode ficar cada vez mais infértil", afirma Conrado.
Carlos Petta, coordenador do Centro de Reprodução Humana do Hospital Sírio-Libanês, relaciona as causas dessa redução com a vida nas grandes cidades: "Essa situação é quase um retrato dos homens de cidade grande. Muitas vezes esses efeitos são maiores nas grandes cidades, porque o estilo de vida que a gente tem hoje é pior do que era há vários anos atrás. Só numa cidade como São Paulo, em termos de poluição, o quanto essa poluição está afetando várias funções do nosso organismo, inclusive a produção e qualidade dos espermatozoides?"
Estilo de vida — As principais causas apontadas por especialistas para a queda na qualidade do sêmen são: poluição do ar, obesidade, estresse, consumo de bebidas alcoólicas, cocaína e crack, tabagismo, alimentação deficiente e sedentarismo.  Esses fatores, que mais recentemente têm sido relacionados com prejuízos na produção de gametas, já são conhecidos há mais tempo por serem prejudiciais para a saúde e a qualidade de vida.
A obesidade e o sedentarismo, por exemplo, ajudam a intensificar a conversão de hormônio masculino (testosterona) em hormônio feminino (estrogênio) no homem. Uma quantidade elevada de gordura na região do púbis também ajuda a elevar a temperatura dos testículos, o que é prejudicial para a espermatogênese. Além disso, tanto a obesidade quanto o stress provocam um desequilíbrio hormonal, que exerce efeitos negativos sobre a produção dos espermatozoides.
A relação entre a obesidade e a piora da qualidade seminal foi observada por um artigo de revisão, que analisou 21 estudos sobre o assunto, publicado em dezembro de 2012 no periódico Human Reproduction. A pesquisa concluiu que tanto a obesidade quanto o fato de estar acima do peso estão relacionados com o aumento da prevalência de azoospermia.
Já a poluição do ar, tabagismo e uso de drogas, como a cocaína e o crack, provocam o aumento da produção de substâncias que são tóxicas para os testículos, enquanto uma alimentação deficiente leva à diminuição da produção de antioxidantes, que combatem os radicais livres e seus efeitos negativos na produção dos espermatozoides.
Previsões – A maior parte dos estudos sobre o assunto ainda é muito recente, e mais pesquisas serão necessárias para que se possa ter uma ideia mais clara da dimensão que essa redução da qualidade do sêmen pode atingir no futuro.
"Não deu tempo ainda de falar 'temos dez anos de estudos mostrando que o homem moderno está ficando infértil'. Tudo está surgindo agora, 2012, 2010, para a ciência é ontem, é muito recente", afirma Conrado Alvarenga. "A gente está acompanhando a queda nos parâmetros seminais no dia a dia."
Para Daniel Zylberstejn, urologista e assessor técnico de análise seminal do laboratório Fleury Medicina e Saúde, o potencial reprodutivo do homem é um fator decisivo para determinar o quanto ele será afetado pelos estímulos externos. "Ainda é difícil de entender o quanto isso pode significar uma perda de potencial reprodutivo no futuro. Provavelmente aqueles que já nascem com potencial baixo podem ser mais afetados por esses agravos, mas talvez esses fatores não causem tantos efeitos naquele homem que tem potencial reprodutivo muito alto", afirma.
Se, por enquanto, a queda na qualidade seminal não pode ser considerada um problema reprodutivo, ela é mais um sinal de que hábitos pouco saudáveis, principalmente os relacionados ao estilo de vida moderno, podem afetar a saúde de diversas formas. "Essa redução pode ser transitória e melhorar. Mas é óbvio que a vida moderna traz consequências ruins para os espermatozoides", afirma Aguinaldo Nardi.

Como prevenir a queda na qualidade do sêmen

Especialistas ouvidos pelo site de VEJA indicam hábitos saudáveis que, além de fazerem bem para a saúde de forma geral, ajudam a evitar danos à qualidade dos espermatozoides.

Atividade física

A obesidade e o sedentarismo colaboram para o desequilibro hormonal, que prejudica a formação dos gametas. São recomendados pelo menos 30 minutos de atividades, três vezes por semana.

Parar de fumar

As substâncias tóxicas presentes no cigarro também afetam a produção de espermatozoides. Deixar de lado esse hábito é um passo importante para a melhora da saúde e qualidade de vida, e muitas vezes pode ser necessária ajuda médica para atingir esse objetivo.

Reduzir o consumo de álcool

Não há uma medida certa para consumir álcool, mas os especialistas recomendam uma redução para a menor quantidade possível.

Evitar o stress

A modernidade e, especialmente a vida nas grandes cidades, cria essa cultura de que “tudo é para ontem”. O stress também é responsável pelo desequilíbrio hormonal, e deve ser evitado. A atividade física pode ser um meio de diminuir a carga de stress, além de atividades de relaxamento, como a yoga.

Dormir melhor

O sono é essencial para regular o bom funcionamento do organismo. Apesar da quantidade ideal variar de acordo com cada pessoa, a recomendação básica é de oito horas diárias de sono. Desligar o celular durante a noite, se possível, pode ajudar a ter um sono mais tranquilo.

Alimentação balanceada

Uma alimentação rica em todos os nutrientes necessários para o organismo ajuda a evitar uma série de doenças, que podem prejudicar a qualidade do sêmen.  As vitaminas e os nutrientes mais relacionados à produção e espermatozoides são: vitamina A, C, E zinco e ômega 3.

Em http://veja.abril.com.br/noticia/saude/por-que-os-homens-tem-cada-vez-menos-espermatozoides

Em 1934, USP nasceu para formar a elite intelectual brasileira.

FELIPE ODA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A USP nasceu em 1934 com o objetivo principal de educar filhos de políticos, advogados, engenheiros, médicos e fazendeiros de café -a elite paulista. Um decreto reuniu sob um mesmo nome a Faculdade de Direito, de 1827, a Escola Politécnica, de 1893, e a Faculdade de Medicina, de 1912.
Segundo pesquisadores, mais de 90% dos primeiros alunos tinham concluído o ensino básico na rede pública. "Colégio particular era para os menos inteligentes", explica Marilda Nagamini, pesquisadora do Centro de História da Ciência da USP e coautora do livro "Fuvest 30 anos", de 2007.
Se em 79 anos esse índice caiu de mais de 90% para menos de 30% é porque a USP se tornou, ao longo das décadas, um reflexo do próprio sistema educacional brasileiro.
Os especialistas não sabem precisar quando o ensino público passou a perder do ensino particular -nem quando houve o aumento de alunos da USP egressos de particulares. Mas, para Shozo Motoyama, doutor em história social pela USP e autor de "USP 70 anos" (2006), os anos sob a ditadura (1964-1985) foram determinantes.

Origem na Elite

Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) no Largo São Francisco

Com o intuito de fazer propaganda do progresso nacional, o regime militar investiu para ampliar o acesso ao ensino superior. Ao mesmo tempo, explica José Sérgio de Carvalho, professor da Faculdade de Educação da USP, as bases da educação ficaram de lado.
O mercado viu, então, oportunidades na criação de escolas pagas. "As particulares eram, na maioria, confessionais [ligados a igrejas]. Após a década de 1960, a educação básica virou um negócio", diz Maria do Rosário Mortatti, professora da Unesp e pesquisadora sobre as universidades paulistas. "Com a escola pública oferecendo formação ruim, famílias com condições financeiras buscaram uma alternativa."
O perfil dos uspianos sofreu a maior mudança de sua história --em 2012, vale lembrar, 28% dos matriculados concluíram a educação básica em colégios públicos.
VESTIBULAR
Mesmo com mais repasses do governo, que garantiam mais vagas, a USP não conseguia dar conta da demanda. Veio, então, a necessidade de criar um mecanismo que restringisse o acesso: o vestibular.
Considerado o embrião da Fuvest, o Cescem (Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas) passou a recrutar alunos em 1964. Outros dois órgãos de seleção de universitários surgiram em 1967 e 1969.
Os três foram responsáveis pelo processo seletivo da USP até dezembro de 1976, data da primeira prova da Fuvest. A partir daí, a fundação assumiu o vestibular. No último exame registrou mais de 159 mil inscritos para menos de 11 mil vagas.
A alta concorrência na Fuvest e a baixa qualidade da educação pública criaram um abismo entre a universidade e os alunos da rede pública.
"A maioria dos alunos da rede pública ou não coloca a USP no horizonte ou sabe que, pela trajetória, será quase impossível", resume Wilson Mesquita, 36, doutor em sociologia pela USP e autor do livro "USP para todos? Estudante com desvantagens socioeconômicas e educacionais e fruição da universidade pública", de 2009.

Em http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/1224407-em-1934-usp-nasceu-para-formar-a-elite-intelectual-brasileira.shtml

Desiludido, Tiririca quer voltar a ser palhaço.

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MÁRCIO FALCÃO
ANDREZA MATAIS
DE BRASÍLIA
Deputado mais votado no país em 2010, Tiririca (PR-SP) quer voltar a ser só palhaço. Desiludido com a política, ele disse à Folha que não disputará mais eleições e, findo seu mandato, em fevereiro de 2015, irá se desfiliar do PR.
Na metade da legislatura, Tiririca, que se elegeu com a promessa de descobrir o que faz um deputado, disse que já entendeu que "não dá para fazer muita coisa".

O desalento, no entanto, não é a razão para deixar o salário de R$ 26,7 mil, verba de gabinete de R$ 97.200 e direito a apresentar R$ 15 milhões em emendas.
A justificativa é a falta de tempo para se dedicar ao que mais gosta: fazer shows (que lhe rendem mais dinheiro do que a Câmara). "Eu sou artista popular. Aqui me prende muito. A procura pelos shows é enorme e não dá para fazer", afirma ele.

Em http://www1.folha.uol.com.br/poder/1225928-desiludido-tiririca-quer-voltar-a-ser-palhaco.shtml

É proibido proibir?

É um dos vícios do mundo moderno: a crença patética de que tudo é possível, tudo é permissível. Ou, como diziam os filhos do maio de 68, é proibido proibir.
Um caso ilustra esse vício com arrepiante precisão: as "barrigas de aluguel".
Li a excelente matéria de Patrícia Campos Mello publicada nesta Folha no domingo. E entendo a pergunta que anima o negócio: se um casal não pode ter filhos por infertilidade da mulher, por que não contratar os serviços de uma "mãe de aluguel", que terá o seu óvulo fecundado pelo espermatozoide do pai adotivo?
Na Índia, a pergunta virou turismo: só na cidade de Anand, conta a jornalista, nasce uma criança a cada três dias para "exportação". Os "clientes" costumam ser americanos, britânicos, japoneses, canadenses. Mas também há brasileiros na lista de espera. Que dizer do cortejo?
Começo pelas questões éticas básicas: será que um filho deve ser comprado (US$ 20 mil na Índia) como se compra uma mala Louis Vuitton ou um par de sapatos Manolo Blahnik?
E será legítimo, ó consciências progressistas, transformar as pobres do mundo em incubadoras dos filhos dos ricos? Não é preciso ter lido Kant para saber que os seres humanos devem ser tratados como um fim em si, não como um meio para.
Fato: o negócio é voluntário. Todas as partes participam dele com "autonomia", para usar ainda a linguagem kantiana. Mas o argumento da autonomia, mil perdões, não chega.
Se chegasse, nada impediria que um ser humano optasse autonomamente por ser escravo de outro. Vamos permitir o regresso da escravidão, mesmo que voluntária, desde que o escravo e o seu senhor exerçam os seus papéis autonomamente?
Não creio. Até porque falar em "autonomia" para gente em situação de pobreza extrema não passa de uma piada de mau gosto: a "mãe de aluguel" indiana e a mãe adotiva americana não habitam o mesmo planeta. A segunda escolhe comprar porque pode. A primeira praticamente é forçada a vender pela miséria da sua situação.
Na discussão das "barrigas de aluguel", parece que só os direitos das mães adotivas têm verdadeira força ética -o direito a serem felizes; o direito a terem filhos; o direito a comprá-los; e etc. etc.
Mas como responder aos direitos das "mães de aluguel"? Ou até dos "filhos comprados"? Será que essas duas entidades têm direitos, no sentido prosaico do termo?
Tempos atrás, quando em Portugal se debatia a "maternidade de substituição" (um processo semelhante às "barrigas de aluguel", mas sem dinheiro envolvido), lembro-me de formular algumas questões a respeito que se aplicam com maior força às "mães de aluguel" a aos "filhos comprados" de Anand.
Que direitos terá uma "mãe de aluguel" depois de entregar o filho biológico ao casal adotivo? Poderá visitar a criança? Será obrigada a afastar-se dela? Como? Por quê? Com que legitimidade?
E se, durante a gestação, a "mãe de aluguel" se recusar a entregar o filho porque desenvolveu uma ligação emocional com ele? Haverá forma de a coagir a cumprir o negócio? Em caso afirmativo, será isso tolerável? Será, no mínimo, decente?
Melhor ainda: o que acontece, para citar alguns casos que ficaram célebres nos Estados Unidos, quando o feto apresenta uma malformação uterina e a mãe adotiva pretender abortá-lo contra a vontade da "mãe de aluguel"? Pode? Não pode? Deve? Não deve?
Sem falar do próprio filho, aqui transformado em mero brinquedo sem rosto ou dignidade própria. Quais são as consequências para uma criança quando ela é separada precocemente da sua mãe biológica? Que impacto isso terá no seu desenvolvimento psicológico ou social? Alguém sabe? Alguém se interessa?
Aliás, como irá essa criança reagir quando, mais tarde, ela souber que foi o produto de uma "encomenda"? Será que deve saber? Será que não deve?
As perguntas não são apenas minhas. Elas encontram-se na vastíssima literatura ética sobre o assunto --e cada uma dessas perguntas foi motivada por um drama concreto, vivido por gente concreta, que entrou no negócio por acreditar que um filho é precisamente isso: um negócio.
Não é. Exceto para cabeças ocas que transformam qualquer desejo em "direito" --e qualquer "direito" em exploração dos mais pobres.

 Em:

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site da Folha de SP.

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