Após 'boom' do consumo, já é hora de pensar em poupar.
Censo 2010 comprova o acesso de milhões de
brasileiro à aquisição de bens; a construção de uma país melhor depende,
agora, da acumulação de riquezas.
Benedito Sverberi e Anna Carolina Rodrigues

Brasileiro ainda tem muita dificuldade para poupar
(Renato Stockler/Folhapress)
Os dados do Censo Demográfico 2010 divulgados nesta sexta-feira pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sancionam uma
conquista do país que outros indicadores já vinham apontando: o forte
processo de aumento da renda e do consumo das classes mais baixas. A
pujança da economia, associada a políticas públicas como os reajustes
acima da inflação do salário mínimo e a ampliação dos programas de
transferência de renda, permitiu a elevação do rendimento das famílias,
especialmente da fatia mais pobre. Outro fator fundamental é derivado da
própria estabilização: o desenvolvimento do mercado de crédito.
Analistas ouvidos pelo site de VEJA são unânimes em afirmar que
minimizar a exclusão de milhões de brasileiros do acesso ao consumo era
medida urgente e necessária. Porém, será isso suficiente para pavimentar
o caminho que o país deve trilhar rumo a uma condição melhor no cenário
global? A resposta é não. É preciso repensar a estratégia de
desenvolvimento do Brasil, de modo a reforçar políticas que permitam a
ampliação da poupança doméstica. Entende-se por este conceito algo
semelhante ao que se aplica a um orçamento de uma casa: a capacidade de
acumular recursos próprios no decorrer dos anos, graças a um esforço de
gerar mais riqueza do que de consumi-la. O esforço deve ser global – de
famílias, empresas e, sobretudo, do governo, cuja gastança chega a ser
vergonhosa. O Palácio do Planalto, por ora, só pensa em continuar a
estimular o consumo.
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Com exceção da perda de participação do rádio, houve aumento
significativo da proporção de domicílios com acesso a bens duráveis nos
períodos investigados pelo Censo (2000 e 2010) (
veja infográfico).
Cabe ressaltar, por exemplo, a ampliação da presença de máquinas de
lavar roupa nas residências, que passou de 32,9% do total para 47,3% na
referida década. Microcomputadores com acesso a internet, por exemplo,
eram inexistentes nas moradias e alcançaram impressionantes 30% dois
anos atrás. A presença de motocicletas para uso particular, também
contabilizada pela primeira vez em um Censo Demográfico, foi de 19,5%.
Política para o consumo – A estratégia dos governos
nos últimos anos tem sido pautada – e é bem-sucedida – em ampliar o
acesso das famílias ao consumo. De posse da estabilização dos preços que
lhes foi entregue pelo governo anterior, e que foi felizmente
preservada, a gestão petista na Presidência da República ocupou-se em
reduzir a pobreza. Para isso lançou mão de expressiva ampliação dos
programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Hoje,
estima-se que um quarto da população brasileira é favorecido direta ou
indiretamente por um programa deste tipo. Além disso, o ex-presidente
Lula e a presidente Dilma concederam aumentos do salário mínimo reais,
isto é, acima da inflação. O efeito destas políticas, associado ao
reflexo do próprio crescimento do PIB na década, foi captado pelo Censo
de 2010. O levantamento também evidenciou a expansão do nível de
emprego, a melhoria na renda, a emergência da nova classe média e a
elevação do padrão de consumo das classes D e E (
veja infográfico).
Esta “nova” riqueza ainda não se traduziu, contudo, em folga financeira
no fim do mês – principalmente para as camadas mais pobres da
população. É que o brasileiro continua a destinar quase todo seu
rendimento com gastos do dia-a-dia. Outro estudo do IBGE, a POF
(Pesquisa de Orçamentos Familiares) relativa a 2008/2009, mostra isso.
As despesas cotidianas, inclusive com compras em lojas e supermercados,
abocanham 92,1% da renda média domiciliar nacional. Uma parcela pequena,
de 2,1%, é direcionada a quitar dívidas. Para o aumento da poupança,
sobram apenas 5,8%.
Crédito vigoroso – O endividamento, aliás, virou fator
relevante nos últimos anos a dificultar um acúmulo mais vigoroso de
riqueza por parte das famílias. Segundo pesquisa da Confederação
Nacional do Comércio, o porcentual médio de famílias endividadas em 2011
foi 62,2%, ante 59,1% em 2010. A elevação do indicador é explicada, em
parte, pelo próprio acesso a linhas de financiamento. Nos últimos cinco
anos, 32 milhões de pessoas tiveram acesso a crédito na primeira vez na
vida segundo dados compilados pela Boavista Serviços com base nos dados
do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Para Fernando Cosenza,
diretor da empresa, uma pequena poupança já seria suficiente para
mitigar casos de inadimplência. “A maioria dos casos de consumidores que
ganham até três salários mínimos e que se tornam inadimplentes poderia
ser evitada se conseguissem ter um pequena poupança”, afirma.
Ainda que os analistas descartem o risco de uma eventual explosão dos
calotes, graças à combinação de economia ainda favorável e juros em
queda, a verdade é que acumular recursos para o futuro equivale a uma
realidade distante do cidadão comum. Para o economista-chefe da gestora
de recursos M.Safra, Marcelo Fonseca, este quadro tem de ser repensado
para que o Brasil consiga caminhar para “o primeiro time”. “É verdade
que, se almejamos nos transformar numa nação com maior PIB potencial,
será necessário poupar mais. O que vale para uma família ou uma empresa
vale também para o país”, pondera.

Poupar é preciso – A história das nações que, ao longo
do século XX, superaram a condição de pobreza e melhoraram de patamar é
rica em exemplos. Expandir a poupança doméstica reflete-se na elevação
do investimento e na melhoria das taxas de produtividade. O raciocínio é
simples: maior disponibilidade de poupança permite melhores condições
de financiamento à atividade produtiva, além de segurança nos momentos
de crise, quando linhas de crédito externas costumam ‘secar’. Empresas,
mas também famílias, conseguem assim financiar mais facilmente sua
própria ascensão. “Se o Brasil quer renda no futuro, será necessário
poupar mais hoje. O consumo não tem de cair, mas sim dar espaço para
poupança e investimento”, afirma.
Aposta contrária – O governo Dilma, contudo, parece
ignorar a importância dessa temática. Ante o risco de 2012 fechar com
uma pequena expansão do PIB, o Palácio do Planalto tem anunciado uma
série de medidas para, uma vez mais, estimular a demanda das famílias.
As principais foram aquelas incorporadas ao
Plano Brasil Maior 2 e, mais recentemente, a
pressão para que os bancos públicos reduzissem os juros dos financiamentos para pessoas físicas e pequenas empresas.
Para Fonseca, é preciso ainda ampliar o debate sobre o tamanho da rede
de proteção social que hoje se estende aos brasileiros. “Será necessário
caminhar para uma situação em que essas pessoas sejam inteiramente
absorvidas pelo mercado de trabalho. Ficaria para elas tomar a decisão
de consumo ou poupança. As pessoas precisam caminhar com as próprias
pernas”, conclui.
Gasto público – O ajuste do gasto público é fator
crucial para permitir a ampliação da poupança interna. Ao cobrar uma
carga tributária semelhante à de países desenvolvidos, o governo aufere
arrecadação gigantesca. Gasta, no entanto, quase tudo com gastos
correntes, como pessoal e custeio, e ainda tem déficit. Em resumo, o
problema fiscal do Brasil contribui para a "despoupança" das famílias.
A carga tributária elevadíssima – fruto não apenas daqueles tributos
diretos, mas também da infinidade de impostos embutidos nos preços de
bens e serviços – tira dinheiro das pessoas físicas e jurídicas. A
medida não teria nada de injusta se as famílias e empresas não tivessem
de arcar depois com funções típicas do estado. Não é novidade para
ninguém que famílias pagam um extra para ter educação e saúde de
qualidade, ao passo que os empresários têm de colocar rios de dinheiro
em infraestrutura, por exemplo. Outro fator a considerar são os juros
elevados – também um reflexo do desequilíbrio fiscal – que fazem com que
o crédito, em caso de inadimplência, torne-se inadiministrável para
alguns.
Sugestões para o futuro – O economista do Itaú BBA,
Guilherme de Nóbrega, afirma ter esperança que o próximo Censo, a ser
realizado em 2020, mostre um país ainda mais avançado. Na avaliação
dele, melhor seria se o próximo estudo revelasse um aumento da
capacidade de oferta do Brasil; melhorias na eficiência da economia; e
uma presença mais intensiva do investimento privado.
Nóbrega concorda que a atenção com o gasto público é um fator
importante, mas destaca também que o Planalto pode contribuir para a
construção de um novo país ao atacar outros pontos: fornecer um ambiente
com regras estáveis; conferir estímulos ao empreendedorismo; lutar para
manter a inflação baixa; preservar o clima de segurança jurídica, etc.
“A maneira de fazer política econômica deste governo tem uma preocupação
central com o consumo, o que é bom. Mas no Brasil, este caminho já está
trilhado. Temos de continuar a avançar agora”, destaca o economista.
Para os analistas ouvidos pelo site de VEJA, o Brasil atualmente se
depara com um grande oportunidade para fazer ajustes. Com os preços das
commodities
em alta, juros muito baixos no mercado internacional e um enorme fluxo
de recursos para o país, há acesso facilitado à poupança externa. O
financiamento é farto, mas o Poder Executivo está usando esses recursos
apenas direcionar ao consumo, além de gastar ‘muita energia’ em
tentativas para proteger setores pouco competitivos. O ideal é que
estivesse investindo em infraestrutura, novas indústrias, educação e
inovação, por exemplo. “Se a gente não mudar esse modelo hoje, seremos
futuramente apenas um país que quase chegou lá”, diz Fonseca.
Leia mais: População brasileira cresce menos nos anos 2000
Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/economia/apos-boom-do-consumo-ja-e-hora-de-pensar-em-poupanca